domingo, 10 de novembro de 2013

(9°) Lembrando do Leminski e do "Caderno"



                                        
                                      
Pacaembú, 16 de setembro de 2008                            
                                   Mulatinha,


            Espero que esteja tudo bem com voce e com todo.
 Dia 4  de agosto voce me enviou uma carta reposta de uma que mandei-lhe há 3 
meses atrás; 
Adorei sua carta: Bonita, bem escrita, leve, bem humorada e objetiva. 
Parecia que voce estava em estado de êxtase quando escreveu. 
Voce estava iluminada e isso se refletiu na carta. 
Me senti tão bem que li e reli várias vezes. 
Obrigado por me proporcionar esses momentos bons. 
Aqui é tão raro isso; momentos bons.
    Troquei de caneta (emprestei) pois a que é minha está uma bosta (perdoe a expressão).
      Se o tempo para você passa celeremente  , cá para nós, ele se arrasta. 
Talvez eu saia para o natal, talvez não.
 Se sair, maravilha, se não sair é porque vou-me embora de R.A (Regime Aberto) 
que trocado em miúdos, é uma prisão domiciliar (não preciso voltar para a cadeia). 
Trabalha-se de dia e ás 22 horas tem de estar em casa.
Se quebrar as regras volta para o fechado (e adeus R.A. ou semi aberto). 
Quero minha vida de volta!
 Sabe, tire alguma coisa (poesia, anotação que voce achar interessante, músicas, etc)
 do “Caderno”*(1) que tem a história do elefante e a formiguinha e me mande. 
Vai ser bom relembrar o passado. 
Obrigado desde já.
 Ah! Voce ficou com os livros de poesias do Leminski?a
 Lembra-se de vários livros da sua autoria que ele me presenteou quando estive 
na casa dele?
 Mande-me algumas poesias dele. 
Eu gosto do estilo do Paulo.
  Se voce tiver oportunidade vê se assiste um filme alemão por nome “Corra Lola, Corra”.
É um filme meio maluco, mas muito bom, desde que você se despoje daquela ideia que a gente tem de filmes norte-americanos, todo certinho, todo bonitinho onde tudo dá certo no fim. 
Assista-o com espírito aberto para o NOVO, para ideias inteligentes e loucas. 
Você, sensível e inteligente como é, irá adora-lo, tenho certeza.
   Mulata, leia, se puder, “Os Miseráveis”  de Victor Hugo. 
Você irá se encantar com a história. Prepare-se, respire fundo, porque é um “catatau“ de 2 volumes, com 3 a 4 dedos de grossura cada um. Um tem 720 páginas (me parece) e o outro 600 e poucas.
O termo é: Você  ficará “encantada” com a história. Não é a toa que é um clássico.

        Quanto a sua técnica de se auto isolar de barulhos, aqui a gente faz isso na “marra” porque são muitos na cela e cada 2 conversa uma coisa (somos em ), com televisão ligada e tudo, imagine só a algaravia. Então se você não desenvolver uma técnica para “captar” o som que você quer, voce se perde  em meio a tantas vozes, tantos assuntos e mais televisão.
Então eu lhe digo que entendo o que você quer dizer. 
É verdade: Fica no piloto automático, cada um com o seu som. 
É isso.
   Gostaria, um dia, se possível, de acompanhá-la ao Centro onde você trabalha e ministra aulas, é isso?
  Sabe, voce falou que seu filho estuda Teoria da Música, né? 
Não sei qual o livro lhe serve de orientação, mas dê-lhe de presente o livro “Teoria da Música” do autor Bohumil Med. 
É o que usávamos no Conservatório Musical em Crtba.
É completo. 
É ótimo. 
Se não for esse que ele usa, pode ter certeza que ele vai adorar. 
Será, para um músico, um excelente presente.
   Fiquei sabendo que a “Tininha” parece que está em vias de separar-se do marido, né? 
Eles nunca se acertaram, Mulatinha. 
Ele é meio neurótico e ela é “gata braba”. 
Não dá certo nunca. 
A mãe dela é daquelas que acha que casamento é união indissolúvel, mesmo que a 
vida de ambos tenha virado um inferno. 
Coisas de Renovação Carismática. 
Meu Deus, será que é isso que Deus quer? 
Que seus filhos sofram em nome de regra criadas pela “Santa Madre igreja”?
Entendeu porque é que nunca gostei de religião? 
Por causa da hipocriia da igreja Católica. 
Prega um amor ao próximo e matou mais que a peste bubônica. 
Prega pureza virginal (como se um animal como o ser humano fosse capaz de 
milagres) e no entanto vemos exemplos de sacanagem de quem deveria zelar por isso
 (padres etc). 
Quem inventou essa de que um relacionamento tem que arrebentar nas costuras mas tem que continuar (aos trancos e barrancos) fazendo a infelicidade de casais, 
filhos, etc.;
 Foram os homens, sabe-se lá com que escusos interesses.
     Ah! Chega de falar nisso!
Por favor, mande-me textos e poesias que voce achar bonitos. 
Eu agradeço.
Fico por aqui, porque estão me enchendo o saco para apagar a luz. 
É fóda morar com quem não se quer morar.
Desculpe-me os palavrões, mas você sabe que eu sou boca suja mesmo, debochado, cafajeste, depravado, amoroso, atencioso, xarope, carinhoso, amigo, louco e etc., né?
Então me perdoe, Mulatíssima.
 Sinto sua falta, nos papos, no silencio atencioso, na solidariedade, na compreensão, mesmo quando eu fazia “cagadas”, mesmo quando o mundo 
inteiro estava contra mim. 
Isso é amiga. 
Obrigado por tudo.
                       Seu amigo,
                                                 
   


                                                   




                                    

* (1) “O Caderno” Nosso ponto de encontro quando estáva difícil nos encontrar, e onde deixávamos escritas para o outro ler. (recados, novidades, musicas, poesias etc.A primeira coisa que escrevemos nele foi a letra da música do disco LP Aquarela, e a letra da música “Aquarela” , ficamos apaixonados pelo LP, e assistimos a peça no Teatro Guaíra em Crtba. Morávamos vizinhos do teatro naquele tempo.)  

  *(Aquarela

Toquinho


Numa folha qualquer

Eu desenho um sol amarelo
E com cinco ou seis retas
É fácil fazer um castelo...

Corro o lápis em torno

Da mão e me dou uma luva
E se faço chover
Com dois riscos
Tenho um guarda-chuva...

Se um pinguinho de tinta

Cai num pedacinho
Azul do papel
Num instante imagino
Uma linda gaivota
A voar no céu...

Vai voando

Contornando a imensa
Curva Norte e Sul
Vou com ela
Viajando Havaí
Pequim ou Istambul
Pinto um barco a vela
Brando navegando
É tanto céu e mar
Num beijo azul...

Entre as nuvens

Vem surgindo um lindo
Avião rosa e grená
Tudo em volta colorindo
Com suas luzes a piscar...

Basta imaginar e ele está

Partindo, sereno e lindo
Se a gente quiser
Ele vai pousar...

Numa folha qualquer

Eu desenho um navio
De partida
Com alguns bons amigos
Bebendo de bem com a vida...

De uma América a outra

Eu consigo passar num segundo
Giro um simples compasso
E num círculo eu faço o mundo...

Um menino caminha

E caminhando chega no muro
E ali logo em frente
A esperar pela gente
O futuro está...

E o futuro é uma astronave

Que tentamos pilotar
Não tem tempo, nem piedade
Nem tem hora de chegar
Sem pedir licença
Muda a nossa vida
E depois convida
A rir ou chorar...

Nessa estrada não nos cabe

Conhecer ou ver o que virá
O fim dela ninguém sabe
Bem ao certo onde vai dar
Vamos todos
Numa linda passarela
De uma aquarela
Que um dia enfim
Descolorirá...

Numa folha qualquer

Eu desenho um sol amarelo
(Que descolorirá!)
E com cinco ou seis retas
É fácil fazer um castelo
(Que descolorirá!)
Giro um simples compasso
Num círculo eu faço
O mundo
(Que descolorirá!)




     (Porque a História de um homem, não pode terminar num túmulo frio e escuro)




                                                            

Gartas Germanicas* - Introdução:


                              


Como Seria  escrever a própria história?
Mais ainda, como seria escrever a sua história mais a de uma pessoa que já não está  mais aqui conosco?
Na verdade eu não sei.
Estou apenas obedecendo a uma ideia que teima em me flutuar na mente há dois anos.

Porque levei tanto tempo para começar?
Também, não tenho essa resposta.

Bem, Cartas Germânicas, são missivas recebidas ao longo de quatro anos com pensamentos, reflexões, recordações, exposições  da intimidade  e  da alma, de uma pessoa, cheia de vida, repleta de novas ideias, de sonhos  e projetos que não conseguiria  realizar.

Mas sobretudo, trata-se da história de um homem, que teve tempo disposição e a coragem, para reavaliar a sua caminhada , seus erros e acertos, e tentar de alguma forma consertar o que o tempo permitisse, ainda nesta jornada.
Um homem, que não teve vergonha de reconhecer seus pontos fracos,  e corrigi-los dentro das condições que a vida lhe permitiu.

Um homem, que deixou marcas em muitos corações.
Boas  e não tão boas, mas que pagou por seus erros.

Bem, não tenho a pretensão literária, e claro  procurei preservar  as  identidades de "terceiros" colocando nomes fictícios, visto que muito personagens presentes nestes relatos não tem ideia dessas cartas a mim endereçadas, e como as entendo como propriedades minhas, não vejo a necessidade de lhes pedir permissão, mas acho justificável, manter suas identidades no anonimato.

Mas então, por que escrever?

É a forma de  fazer com que esta experiência ou estas experincias, possam servir para mais alguém, pois estão repletas de fortes lições de vida.
E principalmente àqueles que com ele privaram da convivencia e intimidade e  dele guardaram uma imagem deturpada, da pessoa linda, sensível  e generosa, apesar de seus defeitos e dos  medos tão humanamente compreensíveis.

Quem  se achar no direito, e ou assim o puder, quem estiver isento de erros, que atire a primeira ou todas as pedras que desejar.
Mas, esta história, pode estar ocorrendo  nesse momento, em qualquer lugar deste mundão, e qualquer um pode ser parte dela, ou não, e apesar de tudo isto, não se trata de ficção, mas da vida ou vidas de pessoas e seus dramas reais.


Toda História merece um ponto final, e esta fora interrompida com reticências.
Porém, a qualquer momento, a vida pode fazer uma curva, e nos colocar novamente frente a frente, ou lado a lado, como a nos dizer, que estamos recebendo uma nova oportunidade para tentar acertar, colocar pontos finais onde  vigoraram as reticências, e tudo o mais que decidamos fazer, para que não fiquem, mágoas, e situações mal resolvidas.
Ah se todos nós tivéssemos essa oportunidade, e as soubéssemos acolhe-las como a um presente divino!
Por anos a fio esperei por esta carta; passei a sonhar com ela, depois, quase desisti, imaginando que havia sido totalmente esquecida e preterida pelo remetente. 

Fazer o que?

 Afinal assim é a vida. 
Pessoas passam pela nossa vida e se vão. 
Mudam-se os rumos de nossas histórias, e seguimos adiante; ficam as lembranças, as histórias, as poucas recordações materiais.

Mas, lá no fundo d’alma, permanece uma nuvem de experança que insiste em não desaparecer; e é exatamente ela quem emite um sinal de que é hora do carteiro passar. 

Ah o carteiro!
Esse personagem mágico, meio cupido, meio cúmplice anônimo, e que nem tem ideia do seu papel na vida das pessoas.

Acho que deve, ou deveria existir uma palavra que definisse este personagem; quero dizer: (definição de um individuo  que não tem noção da sua importancia na vida de outras pessoas.)

E foi assim, numa dessas tardes quentes, muito quente desses dias de verão,  de 2007 ,que ouvi o ruído da correspondência sendo colocada na caixa do correio.

Sem saber ao certo, meu coração tropeçou na sua cadencia, e um silencioso aviso alterou minha atenção, levando-me sofrega rumo ao portão.


Lá estava ela, naquela letra inconfundível, em meio as correspondências comum.
Não preciso dizer da ansiedade,durante dos intermináveis segundos até abrir o envelope e ler a primeira frase:
Oi Mulatinha!...(Essa era a forma carinhosa com que me tratava, em contrapartida eu o chamava "Porongo".

                                                
.
E foi assim que nasceram as Cartas Germanicas.*


                                        
*(Porque a História, a Vida de um homem, não pode terminar na escuridão fria de um túmulo.
Mario Germano de Almeida Cunha, natural da cidade interiorana de São Paulo, Iperó, nascido em  20 de janeiro de 1954,filho do casal Elias Pinto Cunha e Maria da Glória Almeida Cunha, faleceu vítima de uma úlcera de duodeno, por grave hemorragia interna, na madrugada do dia  10 de novembro de 2010, pouco menos de um mês após nos visitar, e prometer que passaria as festas de final de ano conosco. Deixou muitas saudades e um vazio imenso em nossos corações. Sou muito grata a Deus por ter me permitido fazer parte da sua vida, e pela filha maravilhosa que tivemos juntos.
E por ter dedicado seu carinho e atenções de seus últimos dias a nós.
 Onde  você estiver, continua recebendo meus sentimentos desse amor sublimado em amor de irmãos e de gratidão eterna.
                                                         Mulatinha.)
                              
Mulatinha
                

sábado, 9 de novembro de 2013

(3°) - O primeiro contato com a Doutrina Espírita -




Pacaembu, 26 de dezembro de 2007.

Mulatinha,
          Espero que o Natal tenha transcorrido na maior  paz e harmonia para você e para
 o seus entes queridos.
         Aqui houve alegria pois antes dessa data vários companheiros foram passar o natal
 junto a seus familiares usufruindo de um benefício concedido a quem tem bom comporta-
mento e já cumpriu 1/6 da pena (para primários, que é o meu caso) ou ¼ para reincidentes. Ficamos contentes por  sabermos que num futuro próximo seremos nós a receber esse benefício. 
Quem saí de “saidinha” (é como chamamos essa fugaz liberdade) volta depois para o 
semi-aberto, que , também, é cadeia só que mais suave.

         Os livros que nossa filha me mandou tem-me feito muito bem.
São belas histórias, sensíveis e tocantes, que me fazem parar de ler por várias vezes, com um 
nó na garganta e os olhos cheios de estrelas.
        Gostaria muito de conhecer (pessoalmente) o trabalho que você e nossa filha estão fazendo. Tenho certeza que deve ser muito bonito, dado seu coração grande e generoso. 
Graças a Deus estou vendo o mundo e as ações e reações nele desencadeadas de uma forma,
 sob outra ótica, que eu tinha ideia, mas não com tantos detalhes e tão elucidativa., 

        Isso começou em meados do ano passado quando, por intermédio de um companheiro
 li um lindo romance da Zilda Gasparetto. 
Foi fundamental, para mim essa leitura, pois instigou-me a curiosidade, sou de família católica fervorosa, como você bem sabe e a versão católica nunca me convenceu (isso você também sabe). Não consigo conceber um Deus todo feito de amor e compreensão ser apresentado 
pela Igreja Católica como um ser cheio de ameaças e vinganças. 
Isso cheira a dedo humano. Dá a impressão que em 2.000 anos algum “esperto” mexeu 
nos ensinamentos para proveito próprio ou de castas ou de grupos religiosos e políticos. 
Enfim, nunca me convenceu, pois meu Deus é um ser que não castiga, não abandona,
 nem amaldiçoa seus filhos e sim através de nosso livre-arbítrio nos ensina o que é o 
Bem e o que é o Mal. 
A Doutrina Espírita ficou mais de acordo dom meu coração e raciocínio.
Fiquei feliz ao saber que você e o “Tambor” também bebiam da mesma taça embora 
saibam mais do que eu sei. 
Acho isso ótimo pois tenho oportunidade de aprender e crescer.
         Futuramente quero contar-lhe de sonhos que eu tenho e que me encasquetam,
 pois embora mude o cenário eu sei que é a mesma coisa, o mesmo sonho, o mesmo sentido, 
Mulher, sonho muito que estou voando (volitando) e a sensação de  realidade é 
impressionante. 
É delicioso. O interessante é que depois, contra toda lógica, eu me lembro de tudo. 
Que Deus Nosso Senhor ilumine o seu caminho e o de todos os seus entes queridos.
Deus a abençoe.
Deus nos abençoe a TODOS.     

                                                           

                                  
                                                      Pacaembu -26/12/07

        

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

(2°)- O mais belo presente da vida -



                                                   

                  
              09 de novembro de 2007

                   Oi, Mulatinha

           Tudo bem com você?
 Já sarou sua mão? Espero que sim.
          Você é engraçada, mulher, primeiro por não entender o meu 
silêncio e achar que  suas palavras pudessem criar confusões interpretativas. 
Depois por achar que eu iria ficar contrafeito com suas palavras
(que só demonstram preocupação para comigo.)
        Tolinha, eu fico feliz por saber que você não está mais braba comigo.
        Depois daquela   cartinha marota que você me mandou, achei que você nunca mais 
quisesse, sequer, ouvir falar no meu nome. 
Daí, eu me fechar em copas. 
Não sabendo qual poderia ser a sua reação às minhas cartas preferi silenciar. 
Quem foi picado por abelhas tem medo de pernilongo. Né?
Tudo que eu escrevi na carta e que suscitou sua ira, embora sendo uma 
brincadeira minha, mostra que tinha um fundo de verdade: você se ofendeu e 
passou –me um “carão”, quando na verdade, em outros tempos você iria rir 
muito, dado o seu desprendimento para com atitudes e palavras muito conservadoras. 
Você se esqueceu que quem leva se leva muito a sério é digno de risos?
As pessoas tem que ser sérias sim, mas tudo tem limites. 
Você sempre foi espontânea, com um senso de humor afiado para esse tipo de com-
portamento, que achei que você conseguisse enxergar o lado cômico da situação. 

Temos uma maravilhosa filha que herdou de mim e de você uma ótima veia histriônica e, jamais, imaginei que essa mesma veia legada por você à nossa filha pudesse ter se fechado em

 sua alma. 
Fiquei triste pois jamais gostei de ver o sorriso perder para a cara fechada, principalmente num belo ser humano como você, que sempre teve o sorriso fácil, 
entendeu?
 Mas, vamos que vamos.
       Obrigado por se preocupar comigo. 
Isso é próprio  de corações generosos como o seu, minha amiga.
      Baseado no histórico de nossas vidas, onde eu mais recebi que dei, eu seria incapaz 
de sequer, insinuar uma ofensa ou grosseria que pudesse, de longe, vir a magoa-la. 
Eu me sentiria um crápula.
E isso  eu sei que não sou. Foi, apenas, uma brincadeira, coração. 
Pode ter certeza disso.
     Fiquei surpreso e feliz por saber que você e a filhote estão ministrando aulas num 
curso de “Mediunidade sem Preconceito”*.
 Como você  sabe fui criado no mais rígido exercício da fé católica. 
Só esqueceram de mi dizer que eu tinha que acreditar em tudo isso.
A Filosofia Espírita foi o que mais se aproximou da minha forma de ver as religiões. 
Comecei a interessar-me por isso ao ler romances (mui belos por sinal) da Zibia 
Gasparetto. 
Isso incitou-me a ler mais e aprofundar-me em tais assuntos. 
As explicações dadas para todas as coisas são muito mais convincentes do que as teorias 
e explicações dadas pelas Igreja Católica. 
Continuo a não ter religião alguma, mas a acreditar eu Deus acima de tudo. 
Eu continuo a ser um observador atento da vida.
     Ser-me-ia impossível duvidar da existência de Deus quando fui agraciado com o mais belo presente que a vida me deu: 




Nossa filha.             


                                 
Sem mais, despeço-me,
Deus a abençoe,
Deus nos abençoe a todos.
    Escreva-me,
             
                                   
                                                                        Pacaembu
                                                                                       09/11/07 
Nota do Editor:
*Na verdade, funcionávamos como facilitadoras de grupos  de estudantes do curso 
preparado e disponibilizado em PDF por Edvaldo Kulcheski. (Conferir aqui)


                                             

    (Porque a vida de um homem, não pode terminar num túmulo frio e escuro)


                                            

- (1°) O Perdão


                                                                        

                                           

Pacaembu -  07 de dezembro de 2007

Mulatinha,

                 Recebi sua cartinha e agradeço pelas palavras bonitas que voce me escreveu. Realmente, é um belo trabalho que vcê e nossa filha  estão desenvolvendo.
                 Aqui não tem biblioteca, foi tudo quebrado  na rebelião do ano passado, 
o que  resultou em prejuizo e atrazo para a própria população carcerária. 
Uma pena.
                Leio o que meus companheiros me emprestam e que vem por suas respectivas
 visitas, e o que a filhote  está me mandando que por sinal , é de muito bom gosto.
                Ontem estive lendo as cartinhas que ela me mandou e me deu uma angústia
 tão grande.
                Como eu expliquei à ela, foi uma amargura e um arrependimento por não ter
 sido o pai que ela queria e precisava ter. 
Foi também, uma tristeza rever fotos dela 
pequenina, pois me lembrou do que eu não fiz e não fui, entendeu?
Lembrei-me, através das fotos, da casa da minha mãe e por conseguinte, 
lembrei-me dela, da Glória.
Imagine como é que me senti aqui neste lugar (Ô lugar!), sozinho, longe de tudo e 
de todos, sem nenhuma visita, sem ninguém. Os olhos se enchem de estrelas líquidas.
E aquele nó na garganta...
                Querida amiga, não soube compreender também, o amor e o carinho que 
você me dedicou durante todo esse tempo em que vivi com uma trave diante dos olhos. 
Perdoe-me você, também, por não ter sabido dar valor a todo esse belo sentimento que 
me foi oferecido de bandeja e que eu, por ignorância (o velho pit-bull) joguei pela janela.
                Nossa filha jamais poderia ter se transformado no lindo ser humano que 
se transformou sem ter por detrás dela outro lindo ser humano a lhe guiar os passos, 
orientando-a, corrigindo-a e lapidando-a como um mestre ourives faz com suas mais
 preciosas jóias.
Ela é o seu reflexo: só carinho, só amor. 
Sem contar que ela é linda!
Eu não mereço tanto.
Você, minha querida , nunca me abandonou, sempre esteve presente quando o que mais 
lhe ofereci foi a ausência.
Perdoi-me por todo  sofrimento que lhe causei. 
Era falta de juizo mesmo, loucuras da idade, da ausência de experiência e bom senso, 
espírito aventureiro e falta de parafusos mesmo.
 Até agora acho que não criei juizo direito.
Tenho uns arroubos de sonhos loucos que procuro sufocar pois sei que não levam a nada.
Há males que vêm para o bem, pois com minha prisão, fui obrigado a ‘aquietar o facho’
 e poder fazer uma retrospectiva da minha vida.
O que vi não gostei.
Acho que amadureci depois de velho.
Os mesmos erros sei que não cometerei mais.
Agora chega de velhos erros. 
Só novos. 
Tô brincando...
                 Querida, beijo grande e abraço de mil voltas, como dizia a Glória.
                                                                               Seu amigo,
                                                                        Pacaembu-07/12/2007
                                          
P.S.: Escreva-me, é sempre bom receber notícias suas. “BÊJO”



(Porque a História de um homem, não pode terminar num túmulo frio e escuro)



  

                                  
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Como o TCM melou o aumento do IPTU em SP

Vida dura
Vida dura
Elogiei, outro dia, a lógica do aumento do IPTU em São Paulo. Num país em que rico não paga imposto, e ainda reclama da carga tributária e dos maus serviços que recebe em troca da sonegação, é altamente elogiável uma medida que cobra mais de quem tem mais dinheiro e poupa quem tem menos.
Classifiquei como “inatacável” a lógica do aumento do IPTU.
O que não me ocorrera é como a classe média é capaz de atacar o inatacável, dentro de sua miopia egoísta e obtusa. Também não me passara pela cabeça como a justiça é politizada, e como ela poderia atrapalhar uma medida tão positiva.
Vou definir, calmamente, o que é classe média, em minha acepção, para que não pairem dúvidas.
É um estado mental, e não econômico ou financeiro. Não importa o saldo bancário, não importa a renda mensal. O ‘ típico classe média’ pode ser o milionário Rei do Camarote ou o frentista do posto da esquina, passando pelo executivo que vê a Globonews, lê Olavo de Carvalho e acha o Jabor um farol capaz de iluminar o Brasil. Pode ser católico, evangélico, mormon, espírita ou ateu.
Vamos abreviar. Chamemo-lo de TCM, de típico classe média.
O TCM não gosta de pobre, é homofóbico e acha que todo esquerdista é petralha ou comunista. Lê a Veja, onde aprende que Cuba é um inferno e os Estados Unidos o paraíso, ouve a CBN e acha Pondé essencial.
O TCM, seja rico ou pobre ou simplesmente classe média na acepção meramente econômica, olha apenas para o próprio interesse.
E então um aumento de IPTU que não o favoreça vira uma tragédia, uma abominação, um ato de traição.
Os jornais e os sites da mídia corporativa cultivam os TCM. É só ler as seções de comentários. E então editoriais e colunas incentivam os TCMs em sua cruzada patética contra algo que beneficiaria a ignorada, desprezada, maltratada periferia de São Paulo.
E a Justiça, composta por tantos juízes TCMs, faz sua parte também, naturalmente. Tudo isso tem o poder de liquidar um imposto que ajudaria os mais pobres. Mas que interesse tem o TCM pelo o pobre, ou por expressões comunistas como “justiça social”?
O TCM acha que a rua é dele e de seu carro, e não dos pedestres, e não dos ônibus, e não das bicicletas.
Países adiantados socialmente como os da Escandinávia quase não têm TCMs.
Mas no Brasil, e em São Paulo particularmente, eles são muitos, e interferem muito, e atrapalham muito a escandinavização do país com seu reacionarismo estridente e militante.
Algum tempo atrás, depois de visitar uma favela em São Paulo, uma escritora alemã comentou: “Se fosse na Alemanha, eu lutaria para que pagássemos mais impostos”.
Mas o TCM brasileiro vê a favela e ali descobre um motivo a mais para defender a tese de que não se deve pagar imposto.
Por isso ele fica amortecido, e no fundo admira a Globo quando sabe que ela deu, apenas num caso, um golpe de 1 bilhão de reais numa sonegação.
O Brasil vai se tornar escandinavo, mais cedo ou mais tarde. Não existe sociedade sustentável quando as desigualdades são tantas como as nacionais.
O despertar é lento, mas inevitável.
Quando formos uma Dinamarca, vamos olhar para trás e vamos entender que só avançamos porque os TCMs foram ficando numa quantidade menor, menor, menor – até perderem o poder de frear as coisas boas com seu egoísmo obtuso e barulhento.
Sobre o Autor
O jornalista Paulo Nogueira, baseado em Londres, é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.

Fonte deste artigo> http://www.diariodocentrodomundo.com.br/como-o-tcm-melou-o-aumento-do-iptu-em-sp/