quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Consciência Negra? Que a tenha os racistas!

Até entendo a ideia central dessa frase, porém como uma legítima brasileira negra, ela sempre me soa meio esquisita sabe porque?
Bem cresci sob o psiquismo do racismo; Nas frases mais suaves era ser chamada de negrinha. Eu era uma negrinha! Sabia disso, mas quando alguém cuspia essa palavra, ela chegava cheia de  espinhos, que me feriam a alma, porque  vinha envenenada pelo racismo. Era diferente de quando meu pai _Um negrão lindo de  quase dois metros de altura e voz de barítono dizia carinhoso que eu era uma negrinha danadinha de  sabida, ou coisa parecida. Nessa hora, a mesma palavra vinha envolvida no veludo carinhoso do pai que amava a filha. Ou quando meu querido tio João dizia sorrindo, que eu era uma 
"japonesinha preta", devido ao formato dos meus olhos, por ter herdado esse traço da minha mãe de origem indígena. 
Fora isso, haviam os cuidados familiares, contra as maldades do mundo lá fora; papai e mamãe, nos preparava para sobreviver da melhor forma possível, em meio a uma sociedade que embora descendente de forte miscigenação, permanecia também fortemente armada contra os negros de cor negra; percebes a diferença? 
Sempre ouvíamos os avisos paternais para que observássemos os princípios legítimos da honra, do respeito, da honestidade, para que  nossa postura perante a vida nos fortalecesse contra a ignorância dos racistas, mas que não fizéssemos deles inimigos,  apenas companheiros da jornada terrena, que ainda não conseguiam compreender que a cor da pele trata-se apenas e somente de um detalhe, porque o verdadeiro ser humano, o cidadão, o cristão, habita na alma da criatura.
Meu pai era meu mestre! Quanta sabedoria! quanta distinção! Jamais conheci homem mais honrado, mais coerente!
Assim cresci, tendo a consciência de uma menina negra, e na juventude não mudou muito. Cheguei a idade adulta,e a vida exigia tanta atenção, cuidados e sabedoria, que frequentemente me esquecia da minha negritude. Não havia tempo para isso. 
Os racistas que se ocupassem desse detalhe! 

Amei e fui amada, sofri, chorei, sorri, cantei, festejei, lembrei, esqueci,fui esquecida, aprendi, ensinei, enfim, vivi. 
Vivi e vivo plenamente, cada momento, cada desafio que a vida me  tem reservado. Não digo que tenha sido fácil, porque não foi, assim como não o é para ninguém. Porém todos os anos quando chega novembro, paro para refletir e avaliar o que tem sido a luta do negro em nosso país: 
Evidente que sei que para cada pessoa existe um nível diferente de sentir,e vivenciar além de a própria história que difere de um para o outro. Contudo, hoje, o que mais me incomoda, é mesmo, a ausência de sentimento humanitário entre as criaturas. Sei que muita coisa mudou, que existem grupos empenhados em uma luta quase insana, em favor dos diferentes, e que já fizeram uma longa e produtiva caminhada, e mais, que muito ainda há que ser realizado, conquistado, reparado. Sou reconhecida  e grata a todos eles, desde os antepassados que lutaram pelo fim da escravidão negra e indígena. 
Porque a minha relativa tranquilidade com relação a vida, é o justo reflexo da luta desses grandes batalhadores da nossa história  pela igualdade racial e os direitos dos negros. E se um dia me for dado a graça de ser lembrada, quero ser  lembrada como sou hoje, neste momento, exatamente como sou;  Uma mulher negra entrando na terceira idade, feliz e agradecida pelo que a vida me proporcionou. Uma típica  NEGRA VELHA, de olhos indigenas e cabelos carapinhas, mas de coração leve e sorriso transparente.
Dessa forma, no dia de hoje, rendo minhas homenagens a cada um deles que fizeram coro com o personagem símbolo dessa luta, Zumbi dos Palmares; lembrando que  a Civilização Humana teve seu berço na velha África o que  garante a todos os povos espalhados pelo mundo afora, uma quantidade específica de  DNA negro. 
No fundo, racismo e preconceito é sintoma de ignorância, uma bobagem que um dia ficará no passado.
Então que viva a Humanidade! 

3 comentários:

Verinha disse...

QUE LINDA HOMENAGEM Eunice!!!!!!!!
desculpa ,faz tempo que não visito ninguém or conta do meu blog que estava com virus e eu não conseguia entrar.

bjinho

Blogueira Unidas - Oficial disse...

Boa noite querida amiga!

Belíssima tua postagem, parabéns!!

Amei o depoimento,simplesmente maravilhoso e muito bem escrito.

No fundo, racismo e preconceito é sintoma de ignorância, uma bobagem que um dia ficará no passado.

Tenha uma noite abençoada!
Beijocas!

Eunice Terra Fomm disse...

Ninhas queridas Verinha e Siglea,muito grata pelo carinho estampados em vossas palavas

Eu também ando um pouco parada, por conta do volume de trabalho de final de ano. nossa, como passou rápido né?! Mas não vou dormir sem dar uma espiadinha, e morro de saudades de todas.
Bela semana meninas!